Dia 15 de dezembro de 2025

A regularização fundiária urbana abre espaço para revisitar histórias que sustentam a espinha dorsal de muitas cidades brasileiras. No campo da Reurb, essas histórias ganham nome, rosto e memória. Em dezenas de municípios atendidos pelo programa “Morar Legal” – desenvolvido pela Versaurb e que, em algumas cidades, ganha outros nomes –, a presença ativa de avós e bisavós nas reuniões, cadastros e ações em campo revela uma verdade simples: o envelhecimento não interrompe a luta por direitos; ele a torna mais nítida.
Aos 60, 70, 80 anos ou mais, esses moradores mostram que autonomia, dignidade e integração social passam também pela legalização do lote onde construíram suas vidas. Nas reuniões comunitárias e nos plantões sociais, tornou-se comum assistir ao movimento silencioso de homens e mulheres que chegam devagar, às vezes apoiados em bengalas, outras vezes firmes ao lado de filhos e vizinhos. Fazem questão de participar. Não delegam. Não se ausentam. Estão ali porque compreendem que cada assinatura e cada esclarecimento representam uma herança que ultrapassa o limite físico da moradia.
GUARDIÕES DA MEMÓRIA – Esses idosos carregam consigo aquilo que nenhum arquivo técnico registra: a linha do tempo viva dos bairros, distritos e cidades; o sentimento de conquista da terra; os anos de esforço depositados em cada parede, cada quintal, cada reforma improvisada. São guardiões da memória coletiva, e sua presença não é apenas simbólica, é decisiva.
Em Padre Paraíso, cidade do Vale do Jequitinhonha com aproximadamente 18 mil habitantes – e onde a Versaurb fez a regularização de três núcleos urbanos informais que fazem parte do bairro João de Lino, viabilizando o registro de mais de 600 lotes –, dona Antônia Silva, de 103 anos, tornou-se presença constante nas reuniões da Reurb. A idade não a impedia de participar e se manter informada sobre cada etapa do processo.
Ao lado de dona Antônia, a companhia frequente da filha Deca, de 72 anos, e da vizinha Maria da Glória, igualmente septuagenária. Juntas, as três sempre acompanharam as atividades do programa e resumem bem o sentimento compartilhado por muitas famílias: “A gente faz o esforço que for preciso para acompanhar as coisas do bairro, e quando é para beneficiar a gente, participa ainda mais animada”, motiva a centenária matriarca.

FORÇA E PERSISTÊNCIA – A história se repete em Cordeiro de Minas, distrito de Caratinga, onde Lenita Silveira Campos mora há mais de cinquenta anos. Sua casa foi construída antes do casamento, ainda quando vivia em Revés do Belém, distrito de Bom Jesus do Galho. Mãe de sete filhos vivos, quatro deles nascidos em casa, Lenita foi uma das primeiras moradoras a procurar a equipe da Versaurb após saber que mais de 500 lotes do distrito serão regularizados. Para ela, força e persistência caminham juntas: “Para realizar os sonhos a gente precisa ter muita força, confiando sempre em Deus, mas sabendo que a vida depende da gente.”

Outro exemplo é Pedro Alcântara, 69 anos, morador de São Cândido, também distrito de Caratinga. Sua trajetória começa na antiga Colônia Santa Isabel, em Betim, local de isolamento de hansenianos onde sua mãe permaneceu internada, e onde ele nasceu. Depois, a família se instalou em Cordeiro, onde ele cresceu enfrentando dificuldades que nunca o fizeram desistir. Agora, celebra a chegada da regularização fundiária como “uma grande vitória” depois de décadas tentando obter a escritura. “A gente tem de correr atrás do que quer”, ensina “seu” Pedro.

PESSOAS FELIZES – Os irmãos Antônio Américo Salomé, 85 anos, e Francisco Luiz Moura, 74 anos, moram há quase meio século no distrito de Vau Açu, em Ponte Nova. Conhecidos por toda a comunidade, também assumiram o protagonismo quando surgiu a possibilidade de regularizarem seus terrenos, benefício estendido para quase 1.000 famílias do município por meio do programa “Morar Legal”.
A família foi uma das primeiras a se estabelecer no lugarejo, quando a paisagem era “puro sapê e mato”. “Seu” Antônio recorda o esforço necessário para abrir caminho e construir as primeiras moradias de Vau Açu. Francisco, que já presidiu a Associação de Moradores, relembra a luta travada para que muitos não perdessem seus imóveis. Com a escritura regularizada, descreve a sensação de “ver as pessoas felizes pela conquista do nosso lote”.
Em Piedade de Caratinga, no Vale do Rio Doce, Creuza Maria de Souza, 68 anos, mãe de dez filhos, trabalhou a vida inteira na lavoura de café. Depois de muito esforço, conseguiu adquirir um lote onde construiu a casa em que mora há mais de três décadas. Ela já recebeu seu título de propriedade registrado em Cartório e resume o sentimento de muitos moradores: depois de tanta luta, ter o documento definitivo “é a melhor coisa que poderia acontecer”.

A TERNURA QUE SUSTENTA A LUTA – A disposição desses homens e mulheres impressiona. Mesmo com limitações físicas, querem ouvir cada explicação, fazer perguntas, confirmar informações e acompanhar todas as etapas do processo. Em muitos momentos, a emoção se manifesta com intensidade.
A ternura da terceira idade na Reurb traduz a compreensão de que a regularização não é apenas sobre hoje, mas sobre o futuro das próximas gerações. As histórias compartilhadas pelos moradores mostram que cada documento entregue carrega lembranças, lutas e expectativas construídas ao longo de décadas.
Cada gesto desses idosos nas etapas do “Morar Legal” funciona como referência para toda a comunidade. São exemplos de persistência, cuidado e pertencimento. Sua firmeza em participar, mesmo quando o corpo já não acompanha o ritmo de antes, demonstra que responsabilidade social não se aposenta.
Também é comum vê-los ajudando vizinhos: orientam sobre documentos, explicam as etapas do processo, incentivam a participação. Em diferentes cidades onde a Versaurb trabalha, essa atuação fortalece o caráter comunitário da regularização fundiária e reforça a dimensão coletiva da conquista do título.
A FORÇA DE UMA GERAÇÃO – O protagonismo da terceira idade na Reurb mostra que a busca pelo título de propriedade definitivo não é apenas um ato jurídico. É um ato de afirmação. É o reconhecimento de que o lote – mais que divisas e paredes – é o alicerce da família. Lutar por ele, em qualquer idade, é um gesto de responsabilidade com o passado e com o futuro.
São essas histórias reais, marcadas por firmeza, memória e esperança, que revelam o impacto humano da regularização fundiária. Por trás de cada cadastro existe alguém que ergueu o bairro quando ele ainda não tinha nome no mapa; alguém que transformou chão em lar; alguém que agora reivindica o direito de registrar oficialmente tudo o que construiu. Ao final, esses idosos nos lembram que não é o título que faz a história – é a história que dá sentido ao título.

